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terça-feira, 4 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28238: Fauna e flora (31): da enorme biodiversidade à riqueza lexical e linguística da nossa... "Guinesinha" (que é, de facto, uma "África em miniatura"): dari, muntu, tucurtacar, bufre, jagudi ou cacur, sancu, macaco-cão, alma de biafada, peixe-mulher...

Elefante: o nome científico é Loxodonta cyclotis (Matsch). Os fulas chamam-lhe Nhiuá; para o futa.fula é Maubá; em madinga diz-se Samom; em manjaco, Olom; em papel, Oinga; e em saracolé, Turé. 

Fonte: Guia de Identificação dos Animais da Guiné-Bissau. República da Guiné-Bissau, Direcção Geral dos Serviços Florestais e Caça, Departamento da Fauna e Protecção da Natureza, s/l, 34 pp. s/d (Disponível em formato pdf, aqui, no sítio do IBAP ,https://ibapgbissau.org/Documentos/Estudos/Animais%20da%20Guine-Bissau.pdf


Nenhum de nós, antigos combatentes da Guiné, alguma vez pôs  a vista em cima de um  elefante, solitário ou em manada,  durante a guerra... A não ser o "básico de Bambadinca" que, contava-se, um dia, quando estava de sentinela, acordou todo o quartel e as tabancas à volta, aos tiros de G3 em posição de rajada...

Interpelado pelo graduado que fazia a ronda, jurou, em pânico, que tinha visto uma manada de elefantes junto ao arame farpado...  

Há uma réstea de esperança de que o elefante não tenha desaparecido de todo no sudeste da Guiné: nos últimos anos tem sido muito esporadicamente avistado e até fotografado no corredor transfronteiriço constituído pelo  Complexo Dulombi-Boé-Tchetche (Vd. infografia acima reproduzida).  

Em 1955 estava protegido por lei.   Mas a caça furtiva, o tráfico de marfim (que não foi proibido), a(s) guerra(s), e o abate das árvores de grande porte, a par da explosão demográfica humana (a Guiné passou de meio milhão para mais de 2 milhões de habitantes em menos de meio século) são alguns dos factores apontados pelo IBAP (Instituto da Biodiversidade e Áreas Protegidas, da Guiné-Bissau) para o desaparecimento progressivo (e se calhar irreversível) desta espécie animal absolutamente emblemática de toda a África. 

O mesmo aconteceu, desgraçadamente,  em Angola e em Moçambique, palcos de violentos conflitos armados, países nascidos de partos com muito sangue, suor e lagrimas...  

A boa notícia é que o número de elefantes duplicou desde 2018 em Moçambique, passando agora para 22,7 mil indivíduos,

Angola terá passado de mais de 70 mil elefantes em meados dos anos 50 para 3,4 mil no princípio do sec. XXI. Uma hecatombe.





1.   Ainda sobre o Decreto n.º 40040, de 20 de janeiro de 1955, emitido pelo Ministério do Ultramar e assinado pelo ministro Manuel Maria Sarmento Rodrigues (*): é de facto um marco fundador na história do direito ambiental e da conservação da natureza na administração colonial portuguesa. É um extenso e detalhado diploma com preâmbulo e 134 artigos, divididos por 6 capítulos e com 2 anexos.

Preâmbulo 
I (Disposições gerais) (art 1º - art 2º) 
II (Dos órgãos superiores de proteção da natureza) (art 3º - art 9º)
III (Da proteção do solo) (art 10º - art 29º)
IV (Da proteçáo da flora) (art 30º - art 41º)
V  (Da proteção da fauna) (art 42º - art 132º) 
VI (Disposições finais) (art 133º - art 134º)
Anexos I e II


(i) Contexto histórico e internacional
 
Já falámos, no poste anterior (*), da necessidade que o Estado Portuguès sentiu, na década de 1950, de fazer o "upgrade"  da sua legislação  em matéria de "conservação da natureza" nos  territórios ultramarinos, incluindo a regulamentação da caça e da pesca. 

O diploma, que merece uma análise  mais detalhada, resulta de uma visão integrada da "proteçáo da natureza" (solo, flora e fauna). Tem, naturalmente, pontos fortes e fracos, que serão analisados em próximo poste.

Era então ministro do ultramar (1950/55) um dos  mais conceituados políticos do Estado Novo, o oficial superor Sarmento Rodrigues (promovido a capitão-de-mar-e.guerra em 1953), depois de ter sido Governador da Guiné (1945-49).

Sarmento Rodrigues trouxe uma visão pragmática baseada na sua experiência de terreno. O seu mandato será marcado por um discurso de "desenvolvimento"  e "modernização" das colónias (rebatizadas em 1951 como "províncias ultramarinas"), onde a conservação da natureza era vista como parte de um projeto civilizacional (e não apenas ecológico).

O diploma integra orientações e recomendações da Convenção de Londres de 1933, ratificada por Portugal em 1948, bem como da Conferência de Bukavu (outubro de 1953 (pontos 6 e 7 do preâmbulo do Decreto nº 40 040).

O primeiro regulamento de caça da Guiné é só de 1948, mas já tem tinha em linha de conta o espírito e a letra da Convenção de Londres. As últimas atualizações da regulamentação da caça em  Moçambique e Angola remontavam a 1941 e 1942, respetivamente. A de Cabo Verde era de 1928 e a de Timor  1935.

Para a contextualização do diploma, é importante saber que a Convenção de Londres (1933) veio estabelece classes de proteção para espécies (A, B, C), que o decreto adotou no Anexo I. Por exemplo:
  • Classe A (+): Espécies com proteção total (ex.: gorila, elefante de floresta, rinoceronte branco).
  • Classe B (×): Espécies com restrições (ex.: chimpanzé, elefante de savana com presas < 5 kg).
  • Classe C ("): Espécies com proteção parcial (ex.: pangolim, urso-formigueiro).
Por sua vez, a Conferência de Bukavu (1953) (Conferência Interafricana sobre Fauna e Flora, em que participaram a Bélgica, país anfitrião, a França,  Portugal e o Reino Unido) introduziu recomendações adicionais para a conservação, que o decreto incorpora, como a criação de zonas de proteção (parques nacionais, reservas integrais) e a regulamentação da caça utilitária. (Bukavu é una localidade da  na atual República Democrática do Congo, na altura, colónia do Congo Belga).

(ii)  Análise da Lista de Espécies Protegidas na Guiné (Anexo I)

O Anexo I estabelece a lista de animais cuja caça passava a ser estritamente proibida (frequentemente correspondendo às classes de proteção da Convenção de Londres, de 1933).

Na lista que reproduzimos no poste anterior, e no que diz respeito apenas à Guiné,  havia  valiosos pormenores taxonómicos, vernáculos e ecológicos, que merecem ser recordados ou conhecidos Para os mais interessados, e eventual pesquisa de informação adicional, aqui ficam os nomes vernáculos e científicos das espécies dos mamíferos e aves protegidas em 1955. (Poderão observá-los, numa próxima ida ao Jardim Zoológico, com os netos.)
 
  • Pangolim / Papa-formigas de escama (Smutsia, Phataginus, Uromanis)
  • Urso formigueiro / Porco formigueiro (Orycteropus afer)
  • Chimpanzé (Pan troglodytes)
  • Macaco bijagó / Macaco de nariz branco (Cercopithecus nictitans)
  • Macaco fidalgo (Colobus polycomos polycomos)
  • Gato almiscarado / Civeta (Civettictis civetta)
  • Leopardo ou onça (Felis pardus)
  • Elefante de floresta (Loxodonta cyclotis)
  • Manatim ou peixe-mulher / peixe-boi (Trichechus senegalensis)
  • Cabra grande / Muntual (Cephalophus silvicultor)
  • Elande gigante (Taurotragus derbianus)
  • Oribi / Gazela da pedra (Ourebia ourebi quadriscopa)
  • Palanca vermelha / Boca branca / Matagaiça (Hippotragus equinus)
  • Sitatonga / Inhala das lagoas (Limnotragus spekii selousi)
  • Tancon (Alcelaphus buselaphus major) ou alcefe da África Ocidental)
  • Abutres / Jagudis (Gyps, Pseudogyps, Trigonoceps, Neophron, Necrosyrtes)
  • Andorinhas (Hirundo, Petrochelidon, etc.)
  • Calaus / Alma de biafada / Peru do mato (Bucorvus abyssinicus)
  • Cegonhas (Ciconia)
  • Estorninhos (Cinnyricinclus, Lamprocolius, Lamprotornis, etc.)
  • Galinha azul / Galinha de poupa (Guttera edouardi pallasi)
  • Garças brancas / Carraceiras (Bubulcus ibis, Casmerodius, etc.)
  • Marabu (Leptoptilos crumeniferus)
  • Papagaio cinzento (Psittacus erithacus timneh), endémico/característico do arquipélago dos Bijagós
  • Pavão gigante (Corythaeola cristata),  o Turaco-gigante)
  • Pratíncolas / Aves das locustas (Glareola, Galachrysia)




Guiné-Bissau > Região de Tombali > Iemberém> Simpósio Internacional de Guileje > 1 de Março de 2008 > Desenhados nas paredes das instalações da AD - Acção para o Desenvolvimento em Iemberém

Guiné-Bissau > Região de Tombali > Parque Nacional do Cantanhez > Iemberém > 2 de março de 2008 >  Alguns dos animais desenhados nas paredes exteriores das instalações da AD -Acção para o Desenvolvimento

Fotos de Luís Graça, por ocasião de visita ao sul, no âmbito do Simpósio Internacional de Guile modje (Bissau, 1-7 de março de 2008).

Fotos (e legenda): © Luís Graça (2008). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

(iii) Observações Histórico-Ecológicas

Nomenclatura vernácula local:  a Guiné-Bissau, apesar de muitos erros do passado e do presente, ainda é uma "Africa em miniatura": a sua riqueza, nomeadamente faunística, vai a par da riqueza lexical e linguística, resultante da existência do português, do crioulo e de dezenas de línguas locais... Tome-se como exemplo o búfalo, que eu nunca vi na natureza (e também nunca fui caçador):
  • nome científico: Syncerus manus planiceros (Bly); 
  • em crioulo, Bufre;  
  • em balanta, Impungde; 
  • em fula, Edá; 
  • e Siô, em mandinga.
O documento acima citada (Decreto nº 40040, de 20 de janeiro de 1955)  é muito rico ao registar nomes tradicionais e crioulos da Guiné. Termos que refletem a assimilação e catalogação da fauna pela administração com recurso aos conhecimentos locais. Alguns destes termos, em crioulo, já nos eram familiares na Guiné, com o coloquial "sancu" (macaco):
  • "Jagudi" para abutre (em crioulo, cacur);
  • "Alma de biafada" para calau;
  • "Boca branca" ou "Matagaiça" para a palanca vermelha;
  • "Muntual" ou "Muntu" para a cabra grande;
  • "Fatango" e "Macaco fidalgo" para os colobos;
  • "Onça" para o leopardo;
  • "Peixe.mulher" para o manatim;
  • "Tucurtacar" para o pangolim;
  • "Lobo" para a hiena (nos contos tradicionais guineenses);
  • "Dari" para chimpanzé; 
  • "Sancu" (macaco, em geral; babuino ou "macaco-cão", em especialidade), etc.
Biogeografia  do território: a  inclusão de mamíferos como o manatim (comum nos ecossistemas estuarinos e no arquipélago dos Bijagós), do chimpanzé (florestas do sul) e do elande gigante e tancon (savanas do interior/Leste) demonstra uma visão abrangente da diversidade de biomas guineenses (desde os mangais e florestas costeiras às savanas do interior).

Impacto do regime de caça utilitária e aborígene: o diploma distingue expressamente os direitos de caça dos indígenas (usando "armas gentílicas" para subsistência em terrenos abertos) da caça recreativa ou utilitária praticada por colonos ou turistas mediante licenças pagas.

Legado na conservação: o Decreto n.º 40040 preparou o terreno técnico para a criação da rede de parques nacionais e naturais da Guiné-Bissau, no pós-.independência. 

Pesquisa: LG + Blogue + IA (Gemini / Google)
(Condenação, revisão / fixação de texto, negritos: LG)
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segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28235: Fauna e flora (30): O decreto nº 40040, de 20 de janeiro de 1955, do Ministério do Ultramar, não é apenas um regulamento "colonialista" da caça, mas sim um diploma pioneiro (e premonitório) sem o qual os guineenses não teriam hoje Parques Nacionais como os do Cantanhez, João Vieira e Poilão (marinho), Ilhas de Orango, ou os parques naturais como os dos Tarrafes do Rio Cacheu ou das Lagoas de Cufada , ou o Complexo Dulombi-Boé-Tchetche (corredor transfronteiriço)

 

Angola > c. anos 30 > "A Exma. Esposa  do Coronel Félix montada num búfalo-pacaça, que, minutos antes, ela própria abatera a tiro de rifle"  (Joaquim António da Silva Félix era ofcial do exército, coronel, industrial, agricultor e publicista, dono da fazenda Glória, colaborador do Boletim da Sociedade Luso-Africana do Rio de Janeiro, que congregava parte da "intelligentsia" do colonialismo republicano, radicada no Brasil)

Fonte: Boletim da Sociedade Luso-Africana do Rio de Janeiro, nº 8, janeiro e março de 1934, pág. 35.

 


Guiné-Bissau > Região de Tombali > Iemberém> Simpósio Internacional de Guileje > 1 de Março de 2008 > Primatas do Cantanhez: o "fatango" (macaco-fidalgo)... Desenhado nas paredes das instalações da AD - Acção para o Desenvolvimento, em Iemberém. (Para saber mais, ver  Guia_Mamiferos_Cantanhez_web-res_2017.pdf .)

No Cantanhez, há  o macaco fidalgo vermelho (Piliocolobus badius).  e o  macaco fidalgo preto (Colobus polykomos). Em crioulo, ambos são fatango.

Nomes locais, para o macaco fidalgo vermelho: Mane (nalu) | Nhandjo (fula) |  Tugdu-hanz (balanta).

Nomes locais para o macaco fidalgo preto: Madisom/Dossé (nalu) | Bando (fula) | Tugdu-mon (balanta).



Guiné-Bissau > Região de Tombali > Parque Nacional do Cantanhez > Iemberém > 2 de março de 2008 > A "onça" [leopardo-africano], um animais desenhados nas paredes exteriores das instalações da AD -Acção para o Desenvolvimento

Era abundante em tempos, foi sobrecaçada, por causa da beleza da sua pele (e não só:  metia-se onde não devia, por exemplo no perímetro armadilhado dos nossos aquartelamentos)... E hoje o seu habitat vai-se degradando... 

Fotografia de Luís Graça, por ocasião de visita ao sul, no âmbito do Simpósio Internacional de Guiledje (Bissau, 1-7 de março de 2008).


Foto (e legenda): © Luís Graça (2008). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]





Decreto nº 40 040, de 20 de janeiro de 1955, do Ministério do Ultramar. Anexo I:  Animais cuja caça é proibida.


1. Julgamos que é a primeira lista, aprovada por diploma legal, proibindo a caça de certas espécies animais protegidas nos territórios ultramarinos, de Cabo Verde a Timor... Na Guiné,  contemplam -se, pelo menos, 16 espécies de mamíferos e 11 de aves (incluindo os abutres ou jagudis):

Este diploma merece ser visto como um marco histórico . O Decreto n.º 40 040, de 20 de janeiro de 1955, da autoria do Ministério do Ultramar, sob tutela de Manuel Sarmento Rodrigues (1899-1979), é provavelmente o primeiro grande diploma português que estabelece uma política sistemática de proteção da natureza e regulamentação da caça em todas as províncias ultramarinas.

O contexto é importante. Estamos em 1955, numa época em que a palavra "ecologia" praticamente não fazia parte do discurso político. A preocupação dominante era a gestão cinegética, mas o diploma vai muito além disso: cria reservas, coutadas, fiscalização, serviços veterinários especializados e comissões de caça, prevendo inclusivamente investigação científica e medidas de conservação da fauna. 

Para a época, é um documento bastante avançado. Pioneiro. E premonitório.

No preâmbulo e no articulado, a fauna é apresentada como um património que importa conservar, fomentar e aproveitar racionalmente, evitando a sua destruição indiscriminada. A proteção das espécies aparece ligada tanto ao interesse científico como ao interesse económico e ao equilíbrio dos ecossistemas.

Importa, todavia, sublinhar que, na década de 1950, o regime do Estado Novo enfrentava já crescentes pressões internacionais em relação aos seus territórios ultramarinos. 

Ao mesmo tempo, no plano da conservação, consolidava-se a diplomacia ambiental europeia em África.

 O preâmbulo do diploma refere explicitamente a Convenção de Londres de 1933 (focada na preservação da fauna e flora no continente africano) e a Conferência de Bukavu de 1953.

Com este decreto, o Estado português procurava modernizar a sua legislação ambiental nas colónias (que passaram a "províncias ultramarinas" em 1951) para se alinhar com as recomendações das potências coloniais vizinhas  (Grã-Bretanha, França e Bélgica) e demonstrar uma gestão "científica" e "civilizada" do território.


No caso da Guiné, a lista das espécies totalmente protegidas revela bem o conhecimento zoológico existente na época.
 
Mamíferos protegidos na Guiné

Entre as 16 espécies de mamíferos figuram espécies emblemáticas:
  • pangolim;
  • urso-formigueiro (aardvark);
  • chimpanzé;
  • lémure;
  • macaco-de-nariz-branco (macaco bijagó);
  • macaco-fidalgo;
  • gato-almiscarado;
  • leopardo ("onça");
  • elefante-da-floresta;
  • manatim (ou peixe-bice);
  • cabra-grande (bongo);
  • elande-gigante;
  • oribi;
  • palanca-vermelha;
  • sitatonga;
  • ancon (alcélafo-maior).
O anexo identifica estas espécies pelo respetivo nome científico e pelo nome local ( crioulo), e indica também a sua distribuição por províncias ultramarinas: Cabo Verde, Guiné, São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique, Índia, Macau  e Timor.

É interessante notar que muitas destas espécies continuam hoje classificadas como vulneráveis ou ameaçadas (ou até extintas, no território).

Também a lista das 11 aves é reveladora:
  • abutres (jagudis);
  • andorinhas;
  • calaus;
  • cegonhas;
  • estorninhos;
  • galinha-azul;
  • garças-brancas;
  • marabus;
  • papagaio-cinzento;
  • pavão-gigante;
  • pratíncolas.

Há aqui algumas escolhas curiosas:

(i) os abutres, por exemplo, eram protegidos numa época em que, para muitas populações rurais, eram vistos apenas como aves necrófagas, desprezíveis, sem valor;  já sabíamos, nós, os militares,  que desempenhavam um papel sanitário fundamental na eliminação de carcaças e no controlo da disseminação de doenças;

(ii) o papagaio-cinzento africano é hoje uma das aves mais ameaçadas pelo comércio ilegal;

(iii) o pavão-gigante africano continua a ser uma espécie rara das florestas húmidas da Alta Guiné;

(iv) quanto à galinha-azul (Guttera edouardi pallasi), trata-se de uma ave florestal de grande interesse biogeográfico.

2. Um diploma pioneiro... 

Visto à distância de setenta anos, impressiona encontrar disposições que hoje associaríamos à biologia da conservação, denotando uma visão "integrada e sistémica" do problema.

De facto, uma das grandes inovações deste diploma para a época foi integrar, num único corpo legal, a proteção do solo, da flora e da fauna. 

O preâmbulo justifica abertamente essa opção: «pretendeu-se traduzir na lei a unidade que no campo da natureza existe entre o solo, o seu revestimento vegetal e os animais selvagens».

 Criou-se também em cada província um Conselho de Protecção da Natureza (gerido sob a alçada dos governadores) e dividiram-se as zonas protegidas em parques nacionais, reservas naturais integrais, reservas parciais e reservas especiais, a par de:
  • fiscalização especializada;
  • estudos científicos sobre a fauna;
  • controlo das migrações;
  • combate às doenças da fauna selvagem;
  • repovoamento cinegético;
  • estações experimentais de domesticação;
  • limitação do abate de espécies protegidas.

Naturalmente, havia também uma lógica utilitária e colonial: conservar para permitir um aproveitamento futuro dos recursos naturais. Não era ainda uma conservação baseada na biodiversidade enquanto valor intrínseco. Também não sabemos como, na prática, no terreno, o diploma foi implementado...

Todavia, para quem, como nós, viveu na Guiné ( e alguns, em Cabo Verde, Angola ou Moçambique)  dois anos (ou mais),   esta lista desperta inevitavelmente memórias.

É curioso verificar que os jagudis, tantas vezes lembrados nas histórias de humor de caserna (quase sempre associados às lixeiras das tabancas e dos nossos aquartelamentos) figuravam afinal entre as aves legalmente protegidas desde 1955. 

A imagem popular do jagudi como simples "almeida" (=varredor do lixo) escondia a sua enorme importância ecológica como necrófago.

Também impressiona pensar que espécies como o elefante-da-floresta, o chimpanzé, o manatim ou o pangolim, relativamente bem conhecidas na Guiné dos anos 1950, sofreram depois uma forte regressão devido à caça, à destruição do habitat e ao crescimento demográfico. 

Em suma, o Decreto n.º 40 040 representa um documento pioneiro na história da conservação da natureza nos territórios portugueses de África. Embora concebido numa perspetiva colonial e cinegética, antecipou em vários aspetos princípios que só décadas mais tarde se tornariam correntes na política internacional de conservação da biodiversidade. 

A lista de espécies protegidas da Guiné constitui, além disso, um valioso retrato da riqueza faunística do território em meados do século XX.

3. Um diploma também premonitório...

Com a guerra (1961/74), o elefante-da-floresta deixou de aparecer. Mas pode não ter desaparecido completamente da Guiné-Bissau, como aconteceu com o leão.

Durante muitos anos pensou-se que sim, que o elefante-da-.floresta tinha desaparecido mas trabalhos de campo realizados entre 2020 e 2022 confirmaram a sobrevivência de um núcleo minúsculo, provavelmente de apenas alguns indivíduos, na região fronteiriça do sul, entre o Cantanhez, o Corubal e a Guiné-Conacri. É uma das populações mais pequenas e isoladas de toda a África Ocidental, sendo vital a criação e/ou a manutenção de um corredor transfronteiriço ( como é o caso do Complexo Dulombi-Boé - Cheche).

De qualquer modo, há muito que o elefante deixou de fazer parte da paisagem guineense. Um caçador profissional dos anos 1950 ainda podia sonhar encontrar um elefante; hoje seria um acontecimento absolutamente excecional. Os miúdos das escolas do poderão conhecê-lo, mas só para nos livros.

Quanto às outras espécies, a evolução destes 70 anos é dramática.

(i) Praticamente desaparecidas ou funcionalmente extintas
  • Elande-gigante (Taurotragus derbianus): muito provavelmente desapareceu da Guiné-Bissau ainda no século XX; os últimos registos credíveis são antigos e admite-se que apenas aparecessem animais errantes vindos do Senegal ou da Guiné-Conacri;
  • Bongo ("cabra grande"): era uma espécie típica das florestas húmidas; hoje é considerado extinto na Guiné-Bissau;
  • Leopardo ("onça"): sobrevive apenas através de relatos ocasionais; não existe confirmação recente de uma população viável;
  • Palanca-vermelha e sitatonga: sofreram um colapso muito acentuado; sobrevivem, se sobreviverem, apenas em bolsas muito localizadas.

(ii) Espécies muito reduzidas:

  • Chimpanzé: o contrário do que se receava nos anos 1980, não desapareceu; os estudos mais recentes apontam para várias centenas de indivíduos, concentrados sobretudo no Cantanhez e no Boé; o Boé poderá albergar cerca de 700 chimpanzés, e o total nacional ronda aproximadamente 600–1.000 indivíduos, embora as estimativas variem; 
  • Manatim: continua presente nos estuários do Cacheu, Geba, Corubal e Cacine, mas é hoje muito raro devido às capturas acidentais em redes, caça e degradação dos mangais;
  • Pangolim: continua a existir, mas tornou-se muito mais raro por causa da caça para consumo e do comércio ilegal.

(iii) Espécies relativamente resistentes:

  • Macacos (fidalgo, bijagó, patas, babuínos): ainda persistem em várias regiões, embora com densidades muito inferiores às de há meio século;
  • Calaus, garças, marabus e muitos abutres ainda existem, mas algumas populações diminuíram significativamente.

(iv) Porquê esta diminuição drástica da fauna da Guiné-Bissau, em 70 anos ?

Haverá pelo menos umas cinco causas principais, de resto já sobejamente conhecidas: 
  • Caça, primeiro para subsistência e depois para abastecer os mercados urbanos (onde espécies com o macaco-cão, por exenplo, são produto gourmet);.
  • Armas de fogo cada vez mais acessíveis (durante da guerra de independência);
  • Explosão demográfica: a população da Guiné-Bissau passou de cerca de meio milhão de habitantes nos anos 1950 para mais de dois milhões atualmente;
  • Destruição do habitat, especialmente pela expansão dos cajueiros, agricultura itinerante, produção de carvão, abertura de estradas e mineração;
  • Fragmentação das florestas, isolando pequenas populações incapazes de manter diversidade genética.

Em 1955, o legislador protegeu espécies como o elefante, o chimpanzé, o bongo, o manatim ou o pangolim porque já reconhecia que eram raras ou vulneráveis. Setenta anos depois, percebe-se que essa lista tinha um valor quase premonitório: muitas das espécies então protegidas são precisamente aquelas que mais sofreram ou desapareceram da fauna guineense, como se pode ver na comparação a seguir:

Espécie protegida em 1955 | Situação aproximada em 2026
  • Elefante-da-floresta > Restam apenas alguns indivíduos, se a população sobreviver
  • Chimpanzé  > Algumas centenas, sobretudo Boé e Cantanhez
  • Bongo (cabra-grande) > Extinto no país
  • Elande-gigante  > Extinto no país
  • Leopardo  > Eventualmente residual, sem população confirmada
  • Manatim > Muito raro
  • Pangolim > Em forte declínio
  • Papagaio-cinzento  > Em declínio devido à captura e perda de habitat

Essa comparação tem ajuda-nos a valorizar, a nós, portugueses e guineenses, a importância histórica, legal e ecológica deste diploma do "colonialista" Sarmento Rodrigues e a a sua equipa: c
omo é que  como um documento colonial de 1955, pensado para regular a caça, acabou por se transformar involuntariamente num testemunho da extraordinária riqueza faunística que a Guiné-Bissau possuía antes da grande transformação ecológica da segunda metade do século XX.

E mais: o Decreto n.º 40040 preparou o terreno técnico para a delimitação posterior de coutadas e áreas de proteção na Guiné,  cujos ecossistemas viriam mais tarde a sofrer forte impacto com o eclosão da guerra colonial / guerra de libertação (1961/74), mas cujas bases de inventariação serviram de referência para a rede de Parques Nacionais e Naturais da Guiné-Bissau pós-independência, geridos pelo IBAP - Instituto de Biodiversidade e Áreas Protegidas.

(Continua)

Pesquisa: LG + Blogue + IBAP + IA (ChatGPT / Open AI | Gemini Google)
Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, links: LG.
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 1 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28065: Fauna e flora (29): as cegonhas-brancas do Cabo Sardão, no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina (Luís Graça)

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28149: As nossas geografias emocionais (68): Bambadinca, edifício dos CTT, ao tempo do Jaime Machado (ex-alf mil cav, cmdt do Pel Rec Daimler 2046, Bambadinca, 1968/70)



Foto nº 1 e 1A > Guiné >  Bambadinca >  CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) > Edifício dos CTT (Correios, Telégrafos e Telefones): à porta, presume-se que seja um funcionário (talvez cabo-verdiano) à espera de...clientes. Naquela época, os clientes seriam, na sua grande maioria, os militares. Só nos CTT podíamos fazer "chamadas particulares" (para a família, a namorada, um ou outro amigo...). Era preciso marcar data e hora. Em geral, de véspera. Era uma exercício de paciência e persistência, de um  lado e do outro...



Foto nº 2  e 2A> Guiné > Bambadinca > CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) > Edifício dos CTT, sito no lado direito, descendente, da rua principal da povoação... A rua, de terra batida,  vinha do quartel (construído num pequeno promontório à cota 33)  seguia para o rio, o porto fluvial e a estrada de Bafatá, a nordeste.


Foto nº 3 > Guiné  > Bambadinca > CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) > Edifício dos CTT  > Outra perspetiva da rua que dividia a tabanca ao meio, e era muito movimentada (peões, animais  e viaturas; vê-se ao fundo um jipe que se dirige ao quartel que ficava num pequeno promontório)


Foto nº 4 > Guiné  > Bambadinca > CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) > Vista (parcial)  da tabanca  e da zona ribeirinha de Bambadinca. Pontos de referência: o edifício dos CTT, o fontenário, e o rio Geba Estreito.


Foto nº 5  > Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Bambadinca > 2010  > Antigo edifício dos CTT, em ruína  (1)


Foto nº 6  > Guiné-Bissau >  Região de Bafatá > Bambadinca > 2010  > Antigo edifício dos CTT, em ruína (2) e moranças vizinhas


Foto nº 7  > Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Bambadinca > 2010  > Antigo edifício dos CTT, em ruína (3) e aspeto parcial da rua, já então em desuso


Foto nº 8  > Guiné-Bissau > Região de Bafatá >  Bambadinca > 2010  > Antigo edifício dos CTT, em ruína  (4)...  A povoação deve ter passado dos 1500 habitanets em 1970 para os 8 mil em 2010...Hoje, todo o setor de Bambadinca (cidade e comnunidades rurais) deve ter nmais de 32 mil. Bambadinca cresceu ao longo da nova estrada, alcatroada que circunda a bolanha.

Fotos do álbum do Jaime Machado.

Fotos: © Jaime Machado (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Foto nº 9 > Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Setor L1 > Bambadinca > CCS/BART 2917 (1970/72) >  Vista aérea: do lado esquerdo parte (nordeste) do quartel e posto administrativo; ao centro, a tabanca; ao fundo, o caprichoso rio Geba Estreito, o porto fluvial, o destacamento da intendência (Pel Int) e o início da bolanha de Finete (na margem norte do rio), já no regulado do Cuor; e, do lado direito, a nova estrada em construção que ligará o Xime a Bafatá, e que em Bamdinca, contornava a bolanha (que ficava a sul), a grande bolanda de Bambadinca (cujo nome em mandinga quer dizer "cova do lagarto", ou seja, do crocodilo).


Foto nº 10 > Guiné > Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Setor L1 > Bambadinca > CCS/BART 2917 (1970/72) > Vista aérea(1): Legendas: 

Parte do recinto do quartel (1) e rede de arame farpado, a leste e nordeste; porta de armas,com cavalo de frisa (4); casa e loja do Rendeiro (3); edifício dos CTT (5) e fontenário (6) (e logo a seguir o edifício do mercado), ambos na antiga rua principal; nova estrada, circundando a tabanca pelo lado leste/nordeste (7); ligação ao porto fluvial à esquerda e à estrada (já existente, alcatroada) de Bafatá (11); porto fluvial / cais (8); rio Geba (9); destacamento da Intendência (10).


Foto nº 11 >  Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Setor L1 > Bambadinca > CCS/BART 2917 (1970/72) > Vista aérea (2): Legendas: 

Rio Geba (1), destacamento da Intendência (2), porto fluvial / cais (3), bolanha de Finete (4), rampa de acesso ao quartel e posto administrativo (5), loga e casa do Rendeiro (6), edifício dos CTT (7), fontenário (8) .


Foto nº 12 > Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Setor L1 > Bambadinca > CCAÇ 12 (1969/71) > 1970 > Entrada principal, pelo lado nordeste  (sentido Bafatá), do aquartelamento. O fontenário está sinalizado com um círculo a vermelho, ficava a uns 50 metros da casa e estabelecimento comercial do Rendeiro; do outro lado, ficava o edifício dos CTT. Nesta rampa (íngreme)  ia perdendo a vida o major Ribeiro, o "major elétrico", º comandante do BCAÇ 2852 (de nome completo, Ângelo Augusto da Cunha Ribeiro, já falecido):  o seu jipe ficou debaixo de toros de madeira que se desprenderam de uma camioneta (civil ?) que terá perdido os travões ou parado na subida da rampa...


Foto nº 13 > Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Setor L1 > Bambadinca > CCAÇ 12 (1969/71) > 1970 > Vista (parcial) da rua principal que atravessava tabanca de Bambadinca, e que descia do quartel (cota 33) até ao Rio Geba... Assinalado com um círculo a vermelho o fontenário... O edifício dos CTT não é visível, mas ficava do lado  direito, logo a seguir ao edifício com muro branco, no canto inferior direito da foto...  No final da rua, do lado direito ficava a loja e o bar do Zé Maria (comerciante branco, de quem se dizia, justa ou injustamente, que jogava com um pau de dois bicos, como qualquer comercinte numa situação de guerra).


Foto nº 14 > Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Setor L1 > Bambadinca > CCAÇ 12 (1969/71) > 1970 > Vista (parcial) da tabanca de Bambadinca, com o Rio Geba ao fundo. Foto tirada do lado nordeste. Em primeiro plano, contígua ao arame farpado, a casa e o estabelecimento comercial do Rodrigo Rendeiro, um dos poucos comerciantes  portugueses que conhecemos na Guiné, em 1969/71. (Mas parece que havia 11 estabelecimentos comerciais.) Assinalado com um círculo a vermelho o fontenário de Bambadinca, melhoramento inaugurado em 1948.  Nunca lá parei  para beber água (só hoje sei donde é que vinha...). 

Fotos do álbum do Humberto Reis, ex-fur mil OE/ranger, CCAÇ 2590/CCAÇ 12 (Contuboel e Bambadinca, maio 69/março 1971). 

Fotos: © Humberto Reis (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Jaime Machado, foto atual,
na Senhora da Hora,
Matosinhos
1. No tempo do Jaime Machado, alf mil cav, cmdt do Pel Rec Daimler 2046 (Bambadinca, maio de 1968/fevereiro de 1970), bem como no meu/nosso tempo (CCAÇ 2590/CCAÇ 12, 1969/71), o edifício dos CTT era um edifício moderno, funcional, bastante utilizado pelo pessoal militar, e nomeadamente para se fazer chamadas telefónicas para a metrópole. 

Nunca lá entrei. As ligações nem sempre eram fáceis, e tinham de ser pedidas de um dia para o outro. 

Havia CTT nas principais povoações da Guiné, e noemdamente das sedes de circunscrição e nalguns postos administrativos mais importantes. No caso de Bambadinca, desconheço a data da sua instalação, mas deve ser de meados da década de 1950.

O Beja Santos, que lá voltou a Bambadinca, também em 2010, recorda o nome da empregada dos CTT, a Dona Leontina ("uma gentil senhora com quem se apalavrava o dia e a hora para telefonar para Lisboa"). Presumo que a senhora fosse cabo-verdiana, tal como a professora da escola primária ,a  Dona Violante, e o chefe de posto (de quem não me lembro o nome).

Contrariamente à capela, à escola  e ao posto administrativo, o edifício dos CTT  ficava fora do recinto do quartel de Bambadinca (como se infere das fotos publicadas acima)... Mais exatamente,  ficava no lado direito da rua principal que, descendo do quartel, atravessava a tabanca de Bambadinca, dando acesso do lado esquerdo ao porto fluvial (e destacamento da Intendência) e do lado direito à  estrada (alcatroada) para que seguia Bafatá (c. 30 km)... 


Mansoa : Anos 60 >Edifício
dos CTT. Fonte: Arquivo do Blogue
O edifício dos CTT ficava do lado oposto da casa e loja do Rodrigo Rendeiro (comerciante, branco, natural da Murtosa)... Mais à frente, também do lado esquerdo ficava o fontenário (foto nº 14). [Vd. também aqui fotos do fontenário, construído em 1948]. 

No nosso tempo (CCAÇ 12, julho 69/mar 71), Bambadinca nunca foi atacada... Desde o último ataque (28/5/1969), melhorou o dispositivo de segurança. E a presença de uma companhia de intervenção, de pessoal fula, mantinha o PAIGC em respeito, à distância... 

Os nossos soldados do recrutamento local viviam nas duas tabancas,  Bambadinca e Bambadincazinha. Com as suas famílias. E a G3 ao alcance da mão. 


2. Ainda não sei a data de construção do edifício dos CTT de Bambadinca. De acordo com  carta de 1: 50 mil, em 1955 Bambadinca já tinha, além de posto sanitário (S), um serviço telégrafo-postal (TP), mas ainda não tinha serviço telefónico (T). 

O edifício dos CTT de Bafatá é de 1969 e é da mesma tipologia do de Nova Lamego/Gabu, Mansoa e Cacheu (iremos comparar as duas tipologias em próximo poste):
Parece poder concluir-se que a rede de postos dos CTT só se desenvolve  nos anos 60, com a guerra... E, de resto, em Portugal, o telefone (particular) ainda era um luxo. Telefonar, do interior da Guiné para a Metrópole, era uma privilégio, só para alguns. Quem tinha telefone em casa ?!... Mas é também dos anos anos 60 a rede de postos de CTT construídos em Portugal nas cidades e vilas mais importantes (recordo-me ainda da construção do da minha terra, Lourinhã).


Bambadinca: fachada do edifício dos CTT,
foto de José Carçlso Lopes, c. 1968/0
O modelo de Mansoa, Gabu, Cacheu, Bafatá, etc., muito divulgado na época, era do "estilo tradicional português", desenhado como os t0dos os edifícios públicos pelos arquitetos do Gabinete de Urbanização Colonial (GUC), criado ainda durante a Segunda Guerra Mundial, em 1944, por Marcelo Caetano, então ministro das Colónias.

Em 1951 o GUC passa a Gabinete de Urbanização do Ultramar (GUU) e, em 1957, a Direcção de Serviços de Habitação e Urbanismo da Direcção-Geral de Obras Públicas e Comunicações
(DSUH-DGOPC) do Ministério do Ultramar.

O ediffício típico dos CTT, na Guiné (e nos rest5anjtes territórios), nos anos 60/70, era um pavilhão térreo, de composição simétrica, coberto por amplo telhado, apresentando fachada rematada por um frontão curvo, sobrepujado por beiral; uma varanda alongada, ao modo de alpendre, a toda a largura da frontaria...

Sabemos que o de Bafatá é de 1969. É uma arquitetura pública do Estado Novo tardio (anos 60/70).

O de Bambadinca deve ser, anterior, já de meados dos anos 50. Recorde-se que a sede dos CTT, em Bissau, é dessa época:

 (...) Insere-se numa estratégia geral de intervenção do Estado Novo, durante o período em que Sarmento Rodrigues era Ministro do Ultramar (1950-1955), que releva a importância das ligações telegráficas com o propósito de dotar o território guineense de uma infraestrutura de equipamentos e serviços públicos adequados.

" Lucínio Cruz desenha em 1950 a primeira versão e em 1955 o projecto final do Edifício dos C.T.T.. O edifício ocupa o lote inicialmente previsto para construção da Câmara Municipal, um projeto do mesmo arquiteto apresentado em 1948, que acabará por não se concretizar.

"A localização é proposta para o eixo monumental, em frente à Sé, onde se encontram diversos equipamentos públicos." (...) (Fonte: HPIP)



Fontenário de Bambadinca (c. 1968/70).
Crédito fotográfico:  Jaime Machado (2015)


3. Voltando ao edifíicio dos CTT de Bambadinca... Em janeiro de 1974,  foi objeto de arremesso de uma  granada de mão,  defensiva, de origem chinesa... mas sem consequências de maior... Foi mais exatamente no dia 18/1/1974, às 20h45

O efeito foi mais psicológico.  Após buscas pelas NT, foram encontradas mais duas granadas, do mesmo tipo, chinesas, que não rebentaram ou que provavelmente foram arremessadas com cavilha de segurança, por algum tosco aprendiz de guerrilheiro...

Tudo indicava que havia, por esta altura, uma célula ativa do PAIGC na localidade de Bambadinca... Essa hipótese já tinha sido levantada pelo comando do BART 3873 quando em novembnro de 1972,  a PIDE/DGS [, de Bafatá,] efetuara uma prisão, de um elemento ligado à comunidade cabo-verdiana, prisão essa que foi seguida de distribuíção de planfletos denunciando a atuação da polícia política. 

Tanto para o PAIGC como para as NT, Bambadinca era uma posição estratégica, porta de entrada para o leste (mas também para o sul), económica, demográfica e militarmente muito relevante. Mas tudo indica que, nessa altura, o PAIGC estava tentado em multiplicar as ações de "terrorismo urbano":
  • 21/1/1974: primeira acção do PAIGC na cidade de Bissau, com lançamento de engenhos explosivos contra autocarros da Força Aérea; 
  • 26/2/1974: atentado no recinto do café Ronda, em Bissau: duas granadas de mão defensivas com disparador de atraso explodiram no recinto do café, causando cinco feridos graves e 44 feridos ligeiros entre os militares e um morto e 13 feridos entre os civis.
Em 2010, o Jaime Machado voltou a Bambadinca ( tal como o Beja Santos em 2010, e  eu, em 2008). A antiga rua principal, outrora animada e ladeada de casas de habitação e de comércio de estilo colonial, era agora uma desolação... O edifício dos CTT estava em ruínas. O Humberto Reis, em 1997, também por lá passara, e já era tudo  uma ruína... A bonita Bambadinca que nós conhecêramos, já não existia...
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Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 24 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28130: As nossas geografias emocionais (67): o monumental depósito de água de Bolama (conhecido localmente como "castelo")

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27687: Notas de leitura (1890): Apontamentos para a história contemporânea da informação na Guiné Portuguesa (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 17 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Sempre me deu que pensar não haver trabalho de investigação com base no levantamento dos jornais de caserna que foram publicados por um bom número de unidades; e este ensaio de José Júlio Gonçalves, datado até 1965, faz-nos entender que houve um elevado número de boletins e até de jornais de curta duração, como é evidente fruto do desinteresse cultural que se saldava na escassez de leitores e, curiosamente, há um período do Boletim Oficial que assume proporções de um verdadeiro jornal, como tenho procurado inventariar neste trabalho que está em fase de conclusão de um século de Boletim Oficial. Bom seria que as instâncias universitárias se interessassem por estas matérias.

Um abraço do
Mário



Apontamentos para a história contemporânea da informação na Guiné Portuguesa

Mário Beja Santos

Na Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa encontra-se um volume intitulado Cabo Verde, Guiné, São Tomé e Príncipe, curso de extensão universitária, ano letivo de 1965-66, Instituto de Ciências Sociais e Política Ultramarina. No volume consta um artigo assinado por José Júlio Gonçalves, professor catedrático da Instituição e mais tarde responsável pela Universidade Moderna, com o título A informação na Guiné, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe (achegas para o seu estudo).

O ensaio do José Júlio Gonçalves tem um prólogo que vai desde a política do Infante D. Henrique até ao século XIX, é este o período que vou procurar sumular, recordando ao leitor que, tanto quanto eu saiba, não há nenhum levantamento exaustivo e crítico que incida sobre a imprensa e a informações geral que abarque o período colonial.

A introdução da tipografia na Guiné Portuguesa deu-se em 1879, a Guiné estava autonomizada, tinha capital em Bolama, e punha-se a publicação do Boletim Oficial, seus suplementos e apensos. Observa o autor que durante algumas décadas o Boletim Oficial da Guiné andou atrasado, não observando a periodicidade que lhe fora fixada por via legislativa. A situação irá mudar a partir de 1946, durante a governação de Sarmento Rodrigues.

A primeira publicação não-oficial impressa na Guiné foi um número único de A Fraternidade, editado em 30 de outubro de 1883 e que vai aparecer no Boletim Oficial. Tratava-se de uma folha de solidariedade dedicada à recolha de fundos destinados a socorrer as vítimas da estiagem que se estava a viver em Cabo Verde.

Em meados de 1924 começou a circular em Bolama o Jornal Pró-Guiné, órgão do Partido Republicano Democrático, vieram ao lume dez números. Vem a propósito referir que em 1918 fora indeferido pelo Governador o requerimento em que se pedia autorização para publicar um periódico com o título de Jornal da Guiné. Em 1925 iniciou-se em Bissau a publicação do Boletim dos Correios e Telégrafos, que teve curta duração. Em 1930, apareceu em Bissau, pela mão de Manuel Pereira Manso, a primeira tipografia particular, o que deu origem à publicação de um jornal da iniciativa privada; assim, apareceu entre 1930 e 1931 o jornal Comércio da Guiné, um órgão declaradamente vinculado aos interesses económicos. Em 1932, a Missão Católica de Bolama publicou um número único, denominado 15 de Agosto. Seguem-se outras iniciativas como publicações episódicas, até que em 1942 temos o aparecimento de o Arauto, o primeiro diário guineense, jornal católico, sucessivamente boletim, diário e semanário (policopiado) e depois mensário (impresso).

Em 1946, o Centro de Estudos da Guiné Portuguesa publicou o primeiro número do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, que continua a ser uma publicação de referência para a investigação histórica. Em 1956, por iniciativa da Comissão Municipal de Bolama, deu-se início à impressão do quinzenário Bolamense, publicação que se interrompeu m 1963. Na década de 1950 surgiram outros boletins, caso de Ecos da Guiné – Boletim de Informação e Estatística, o Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné e o Boletim da União Desportiva Internacional de Bissau.

Recorda o autor que o protestantismo teve as suas publicações periódicas e meios de comunicação social não periódicos. A Missão Evangélica da Guiné Portuguesa teve em Bissau a livraria Victória, que fazia a distribuição das publicações periódicas e não periódicas protestantes. Importa recordar que temos ainda os jornais de caserna editados pelas forças militares, o autor faz uma relação do que certamente lhe chegou ao conhecimento até à data da finalização do seu ensaio.

Também faz uma alusão aos jornais escolares impressos e de parede. Um ponto no mínimo muito curioso passa pela referência às publicações do PAIGC, o Caderno Escolar e O Nosso Primeiro Livro de Leitura, o que deixa surpreso o autor é tudo ser redigido em português. Para finalizar a súmula deste trabalho de José Júlio Gonçalves importa dizer que há referências ao cinema, à rádio e chama-se a atenção do leitor par ao número impressionante de cartas e aerogramas chegados em 1964, cerca de 300 000.

Como tive oportunidade de referir a propósito do Boletim da Associação Comercial Industrial e Agrícola da Guiné, toda esta documentação, mais tarde ou mais cedo terá de entrar no campo das pesquisas dos investigadores, um tanto à semelhança da investigação escrutinada do Boletim Oficial, são ferramentas auxiliares que nos ajudam a percecionar o quadro de mentalidades naquele tempo histórico da informação impressa, radiodifundida, as mensagens essenciais dos jornais de parede e até o estado de espírito daqueles muitos jornais de caserna que ainda estão por repertoriar.

Reprodução de uma página do caderno escola do PAIGC, tempos da luta armada
Primeira página de um jornal de caserna
Do tempo em que o Arauto era boletim diário
Uma só folha, dedicada à angariação de fundos para apoiar os cabo-verdianos vítimas da seca
Mais uma primeira página de um jornal de caserna
Porventura o último jornal da Guiné Portuguesa
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Nota do editor

Último post da série de 26 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27673: Notas de leitura (1889): "Vida e Morte na Grande Bolanha do Rio Mansoa", por Albano Dias da Costa; primeiro Prémio Literário Antigos Combatentes, atribuído pelo Ministério da Defesa Nacional, 2022 (Mário Beja Santos)